(artigo de opinião no Jornal Público de 9 de Maio 2008)
Steve Ballmer, o mítico e fervoroso chefe operacional da Microsoft, deve ter ficado num estado muito pouco recomendável quando há poucos dias viu saírem frustrados os seus planos para fazer a aquisição, por uma soma muito considerável de 49,6 mil milhões de dólares, de uma importante posição no mundo digital e da publicidade online chamada Yahoo.
Era uma conquista há muito ambicionada pela Microsoft que lhe permitiria aproximar-se do líder Google na área do marketing digital. As verbas eram de facto muito elevadas mas a administração da Yahoo recusou sucessivamente a oferta milionária o que deve ter feito Ballmer espumar de raiva por terem falhado os seus planos, devendo agora partir para um plano de contingência. O líder da Microsoft é um homem de emoções fortes “muito audíveis ao fundo do corredor” e imagino que estes não sejam tempos fáceis para quem trabalha directamente com ele… é bem conhecido pelo seu mau génio quando falham os seus planos (que em nada lhe retira os méritos sólidos de um dos melhores gestores operacionais do mundo…).
Conhecendo o empenho com que os gestores da Microsoft se dedicaram durante mais de um ano à preparação desta ofensiva, e face à volatilidade a que assistimos hoje nos mercados, apenas uma razão muito forte e interna da Yahoo pode ter estado na origem desta recusa, neste caso a razão de uma recuperação da confiança e de restabelecimento da performance financeira. E essa razão chama-se Jerry Yang, o mítico fundador da Yahoo que em 18 de Junho de 2007 voltou a assumir, após a saída do gestor principal Terry Semel que tinha ocupado o lugar durante seis anos, as rédeas do negócio.
Tal como Michael Dell e Steve Jobs, Jerry Yang regressou à empresa após períodos conturbados onde era preciso agarrar com empenho nos fundamentos que tinham levado neste caso a Yahoo a destacar-se como pioneira no seu sector. E provavelmente Steve Ballmer e as suas tropas nunca pensaram que ele fosse capaz de fazer um tão bom trabalho.
Uma coisa é fundar um negócio, dar-lhe um cunho estratégico e fundar a sua marca e outra coisa completamente diferente é gerir, neste caso sem o co-fundador David Filo, as complexidades de uma gigante organizacional que empregava em 2007 mais de 11.000 pessoas… Wall Street acreditava na altura que a estratégia Jerry Yang seria meramente transitória e que poderia mesmo perspectivar a preparação “pacífica” de um buyout. Michael Dell e Steve Jobs fizeram um espectacular regresso mas ambos, e ao contrário de Jerry Yang, já conheciam muito bem a casa e tinham sido CEO´s durante bastante tempo, e por isso sabiam com o que contavam. Não Jerry Yang, foi “apenas” o fundador…
Esta grande vitória de Yang e da Yahoo faz renascer um player importante que muitos julgavam ir perder-se na voragem das fusões e aquisições. Para grande satisfação de Seth Godin, que foi em 1998 Chief Marketeer da Yahoo, podem tirar-se algumas ideias desta história chamada Jerry Yang que vamos continuar a acompanhar:
1. Em alturas de grande pressão para a mudança a solução de ter um homem da casa à frente dos destinos da organização pode ser um trunfo importante. Poupa tempo de adaptação e proporciona um sentimento de pertença e de identificação vitais para restituir moral e sentido de grupo.
2. Uma recuperação sólida e de longo prazo pode ser necessária fazer-se sem olhar excessivamente para Wall Street, que pensa essencialmente de forma trimestral…
3. Um plano credível e muito sólido para os primeiros 100 dias são um teste vital que é, em boa parte, responsável por ter os colaboradores alinhados e prontos para os duros combates de mercado.
Steve Ballmer está agora a tentar comprar a AOL… ainda não consta que Jerry Yang esteja a olhar para esse lado mas é melhor a Microsoft andar depressa.
Share This